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São Paulo,

Reportagem especial do Estadão reconstitui a história da Guerra do Contestado

Consagrados por caderno especial sobre conflitos esquecidos do Brasil, o repórter Leonencio Nossa e o fotógrafo Celso Júnior reveem o episódio que marcou o Sul do País

 No último domingo (12/2), o Estadão publicou a reportagem especial Meninos do Contestado, sobre o conflito armado que tomou parte do Sul do País entre 1912 e 1916. A Guerra do Contestado colocou de um lado a população cabocla e pobre e, do outro, o governo, deixando marcas profundas e ainda visíveis na região. Foi atrás desses relatos (e de testemunhas vivas do período) que se aventurou a dupla Leonencio Nossa e Celso Júnior (fotógrafo), da sucursal de Brasília do jornal. Parceiros de outras empreitadas, os repórteres já produziram, entre outros, o caderno especial Guerras Esquecidas do Brasil, que ganhou diversos prêmios, incluindo dois internacionais. Leonencio também trabalhou numa reportagem especial que reviu documentos da Guerrilha do Araguaia, que pretende publicar em livro ainda este ano.

 Para Cida Damasco, editora-chefe do Estadão, “o caderno já nasceu como um projeto multimídia. Foi quase uma continuação natural do trabalho Guerras Desconhecidas, publicado no final de 2010”. Segundo ela, a apuração levou um ano, sendo três meses somente na região do conflito. “Por si só, isso já comprova, mais do que apoio, o forte engajamento da redação, a começar da sucursal de Brasília”, relata. Confira na pág. 2 a entrevista que Leonencio e Celso concederam a J&Cia.

Jornalistas&Cia – Quais foram as maiores dificuldades enfrentadas durante a reportagem?

Leonencio Nossa – Foi um trabalho de longo tempo, mais ou menos um ano. Foram cem dias de pesquisa de campo. Antes, fizemos uma coleta de documentos. Nosso principal desafio era confrontar os fatos com a bibliografia que já existia no Sul, e procurar por novos fatos, que pudessem realmente informar o que ainda não havia sido contado. Quando chegamos aos arquivos do Exército, por exemplo, eram muitos documentos, cerca de dois mil, e tivemos que verificar cada um e registrá-los. Era a versão oficial que tínhamos, mas precisávamos do outro lado. Para isso, tínhamos que localizar pessoas vivas para nos contar. E a região pesquisada figura entre os piores IDH do Sul do Brasil, com expectativa de vida muito baixa. Incrivelmente diferente da Santa Catarina mais conhecida, a região [onde ocorreu a guerra] é composta de 40% de população pobre e indigente. Constatamos, no trabalho, que a guerra de tantos anos ainda não foi resolvida, isolando a região como uma ilha de pobreza bem no Sul do País. Nos concentramos na infância para contar a sua história, já que não tínhamos os relatos de combatentes, já falecidos. Mas a reconstrução da história era frágil.

J&Cia – Como vocês se programaram para fazer a reportagem ao longo do ano?

Leonencio – Não dá para parar o dia a dia e se dedicar a um só assunto, então o jeito é conciliar com o trabalho que temos que fazer. Começamos com o ofício da pesquisa, que leva muito tempo para reunir toda a bibliografia e consulta no Exército. Depois reunimos em arquivo o que interessava do ponto de vista jornalístico e saímos em campo para confrontar os dados. Em seguida, produzimos relatórios e juntamos com a parte militar, só aí pudemos condensar todo o material. Foi trabalhoso.

J&Cia – Como foi encontrar três velhinhos centenários nessa história?

Leonencio – Eram pessoas de 102, 105 e 108 anos, muito lúcidas. Duas senhoras fisicamente perfeitas, e um senhor numa cadeira de rodas, que fala com dificuldade, mas que nos deu o mais forte depoimento, pois perdeu o pai durante a guerra.

Celso Júnior ­ Quando partimos para a região, nem no pensamento mais otimista imaginávamos que encontraríamos três personagens com mais de 100 anos. A dificuldade de fotografar, principalmente o sr. Atino, foi muito grande. Tive que respeitar o espaço dele e esperar o momento dele. Mas eles eram lúcidos e nos deram um relato em que transpareceu todo o sofrimento que tiveram com a guerra, sofrimento que os acompanha até hoje.

J&Cia – E a ideia de pedir ajuda às rádios e aos jornais da região, inclusive a serviços de alto-falante, para encontrar sobreviventes do período? Como foram essas negociações?

Leonencio – Quanto mais pessoas ajudando, melhor. E fomos encontrar colegas de profissão nessa luta. A rádio é um veículo fantástico de comunicação, além de blogs e pequenos jornais. O que me chamou a atenção foi que no final das contas muitos nos disseram que tinham vergonha de contar essa parte da história, e precisaram da iniciativa de um veículo de fora para aumentar sua autoestima. Divido com aqueles profissionais os méritos pelo reconhecimento desse trabalho.

J&Cia – O trabalho limitou-se ao que foi publicado?

Celso – Produzi um grande material fotográfico na reportagem. Passei dias e dias na edição das fotografias e cerca de um mês numa ilha de edição, montando um documentário de 16 minutos, Meninos do Contestado. Há depoimentos, fotos, narração... Está tudo disponível no portal do Estadão.

Teste de novos produtos e retorno de conceitos originais agitam o Valor Econômico

Jornal prepara serviço exclusivo de conteúdo em inglês e resgata antigo projeto do caderno Eu&

 As mudanças pelas quais vem passando o Valor Econômico não pararam com o giro de editores que ocorreu entre dezembro e janeiro (ver J&Cia 827 e 829). Reformulações ainda maiores acontecem neste semestre, com a mudança do caderno Eu& e a estreia de um serviço em inglês para assinantes. Nesta 2ª.feira (13/2) o jornal já começou a circular com um novo Eu& que, em princípio, resgata o espírito do original caderno Eu&, existente desde o lançamento do jornal, em 2000. Na época, a editoria visava cobrir pautas de Cultura e Comportamento, com foco na pessoa física, que trafegassem de forma equilibrada em meio ao noticiário empresarial. Assim permaneceu até 2003, quando ganhou novos contornos editoriais para se adequar a um considerável enxugamento de equipe. Seu nome passou a ser Eu& Investimento e acabou abdicando daquele espírito mais leve, que agora está de volta. As pautas de abrangência corporativa migraram para as demais editorias e cadernos, particularmente o de Empresas. O caderno voltou a se chamar Eu& de 2ª a 5ª, mas às 6as retoma o nome Eu& Fim de Semana, com matérias de maior profundidade. Para reforçar o time nesta nova fase Amarílis Lage, que era editora da Criativa, foi contratada como sub de Cultura.

 O novo serviço para assinantes visa converter para o inglês matérias exclusivas ou analíticas do Valor. O conteúdo será veiculado em um site, acompanhado de boletins via e-mail. “A ideia não é funcionar como uma agência de notícias com noticiário em inglês, mas um meio de fornecer material que só o Valor possui e que possa atender ao interesse cada vez maior do público estrangeiro sobre informações do Brasil”, explicou a J&Cia o coordenador do projeto, Hilton Hida (ex-O Globo e Wall Street Journal, em Washington). Segundo ele, o site entra numa fase mais intensa de testes em março, com produção regular. Três profissionais devem ser selecionados para compor uma equipe de conteúdo. A data de lançamento oficial depende dos testes em processo.

Dança das cadeiras Além dessas novidades, o tráfego regular de chegada e saída no Valor Econômico está intenso. Para compor a reportagem de Agronegócios foram contratadas Janice Kiss, saída da revista Globo Rural; e Carine Ferreira, que vem do canal Terraviva. Alda do Amaral Rocha deixou a mesma editoria para estudar na Sorbonne, em Paris. Luciana Seabra passou do caderno de Tendências e Consumo para o de Investimentos, que também recebeu a repórter Adriene Castilho. Luciana Monteiro deixou a editoria de Finanças, também para uma temporada de estudos no exterior. A editora de Brasil Denise Norma negocia a contratação de alguém para substituir Bruno de Vizia, que era editor-assistente no online e saiu em janeiro. Também se despediu Luciana Otoni, que deixa a sucursal em Brasília a caminho da Reuters.

 O Departamento Comercial do jornal é outro que passou por mudanças. Entre elas, a promoção recente de Rosvita Sauressig a diretora geral da área, sucedendo a Selma Souto, que deixou a empresa no final de 2011. Todo o departamento está agora subordinado a Rosvita, exceto a área de publicidade legal, sob os cuidados de Andrea Flores. Rosvita continua comandando o setor de Projetos Especiais, que conta hoje com cerca de 200 produtos, entre anuários e suplementos, e passa a contar com um editor-executivo, cargo que deverá ser exercido em sistema de rodízio por integrantes da própria equipe. Quem inaugura a função é Pedro Cafardo. Nos seis meses em que ficará à frente do novo trabalho será substituído no fechamento do jornal por Cristiano Romero, vindo de Brasília.

Juliana Iootty é promovida a chefe da Região das Américas da BBC

Rodrigo Pinto chega à BBC Brasil

 Juliana Iootty (juliana.iootty@bbc.co.uk e 0044-20-7557-1877), que desde julho passado estava no comando da BBC Brasil em Londres (ver J&Cia 802), assumiu a Chefia da Região das Américas do Serviço Mundial da BBC. Ex-editora adjunta de Internacional de O Globo, editora de Internacional dos sites Globo Online e GloboNews.com, redatora e repórter de O Globo e Oficial de Informação Pública das Nações Unidas, Juliana deixou o Brasil há três anos para assumir em Londres o posto de senior news editor, cargo que corresponde ao de editor-chefe. Ainda por lá, o carioca Rodrigo Pinto juntou-se à equipe na semana passada. Segundo Juliana, “ele trabalhará com a BBC Brasil por um ano, e sua contratação faz parte do esforço editorial que a organização pretende levar a cabo este ano, com as Olimpíadas de Londres, o Jubileu da Rainha, as eleições americanas, entre outros eventos internacionais”.

MZ e MVL concluem processo de fusão

 Foi anunciada na última 4ª.feira (8/2) a conclusão do processo de fusão entre a MZ e a MVL Comunicação, culminando na criação da holding @titude Global (www.attitude-global.com). O acordo para a integração, divulgado em outubro (ver J&Cia 818), precisou aguardar a due diligence que auditou o processo e definiu as participações acionárias. Rodolfo Zabisky, sócio-fundador da MZ, passa a ser o CEO da @titude. Sócio da MVL, Caio Tulio Costa torna-se presidente do Conselho de Administração e Nilson de Oliveira, presidente da MVL. Mauro Lopes permanece como sócio-fundador da MVL, ainda que esteja afastado desde novembro, devido a seu período sabático. O nascimento da holding ainda inclui a integração da Lead (administração, inteligência de negócios e IPO), da Pixit (campanhas e soluções em vídeo) e da Bric (comunicação corporativa). As empresas que formam a holding tiveram receita de R$ 60 milhões em 2011 e tem o ambicioso plano de crescer mais de 200% em 2012. Sediada em São Paulo, a @titude Global tem escritórios em Nova York, Chicago, San Diego, Hong Kong, Pequim, Xangai e Taipei, com uma carteira de mais de 580 clientes em 11 países.

Plano de trabalho para 2012 busca maior autonomia financeira da EBC

 O Conselho Curador da EBC aprovou em 8/2 o plano de trabalho para 2012, elaborado pela Diretoria Executiva da empresa. O texto estabelece prioridades da instituição para o ano, como o fortalecimento da rede pública de televisão, a busca por maior autonomia financeira, a qualificação da programação e o aumento de alcance e audiência dos veículos da EBC. No encontro, o presidente Nelson Breve convidou o Conselho a participar do planejamento estratégico da empresa, que apontará ações, metas e objetivos a médio e longo prazo. Foi destacada a importância de se buscar uma cobertura consistente e multimídia da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, em 20/6, a exemplo da realizada durante o Fórum Social Temático, em Porto Alegre. O Conselho também aprovou a criação de uma comissão para pleitear no Ministério do Planejamento que a EBC seja poupada de grandes cortes orçamentários em 2012 a fim de não prejudicar a produção da empresa. Durante a reunião, dois novos conselheiros foram empossados: o novo titular do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, Marco Antonio Raupp, assumiu a vaga deixada pelo atual ministro da Educação, Aloizio Mercadante; e o maestro e compositor Wagner Tiso entrou na vaga antes ocupada pelo advogado José Paulo Cavalcanti. A próxima reunião do Conselho está marcada para 14/3, em Brasília.

Lúcio Flávio Pinto busca solidariedade de leitores e colegas para extinguir condenação

 Sob a alegação de erros formais na formação do agravo, o presidente do STJ Ari Pargendler negou no último dia 7/2 seguimento ao recurso especial pelo qual Lúcio Flávio Pinto, do Jornal Pessoal, de Belém, tenta extinguir uma condenação por ofensa moral ao falecido empresário Cecílio do Rego Almeida, dono da Construtora C. R. Almeida. Em 1999, Lúcio denunciou que Cecílio havia se apropriado de quase cinco milhões de hectares de terras no vale do rio Xingu, no Pará, além de minérios e outros recursos naturais. Embora a Polícia Federal tenha comprovado o crime (não prendeu o empresário porque a pena  prescreveu), Lúcio foi condenado a pagar a Cecílio indenização de 8 mil reais (em valores da época), que, corrigidos, sofrerão aumento considerável. Em nota que distribuiu nesta 2ª.feira (13/2) historiando o caso, diz ele: “Mesmo tendo provado tudo que afirmei fui condenado. A cabulosa sentença de 1º grau foi confirmada pelo tribunal, embora a ação tenha sido abandonada desde que Cecílio do Rego Almeida morreu, em 2008. Depois de enfrentar todas as dificuldades possíveis, meus recursos finalmente subiram a Brasília em dezembro do ano passado. O recurso especial seguiu para o presidente do Superior Tribunal de Justiça, ministro Ari Pargendler, graças ao agravo de instrumento que impetrei (o Tribunal do Pará rejeitou o primeiro agravo; sobre o segundo já nada mais podia fazer). Mas o presidente do STJ, em despacho do último dia 7, negou seguimento ao recurso especial. Alegou erros formais na formação do agravo: ‘falta cópia do inteiro teor do acórdão recorrido, do inteiro teor do acórdão proferido nos embargos de declaração e do comprovante do pagamento das custas do recurso especial e do porte de retorno e remessa dos autos’. A falta de todos os documentos apontada pelo presidente do STJ me causou enorme surpresa. Vou tentar esclarecer a situação, sabendo das minhas limitações. Não tenho dinheiro para sustentar uma representação desse porte. Muito menos para arcar com a indenização. (...) Decidi escrever esta nota não para pressionar alguém. Não quero extrapolar dos meus direitos. Decisão judicial cumpre-se ou dela se recorre. Se tantos erros formais foram realmente cometidos no preparo do agravo, o que me surpreendeu e causou perplexidade, paciência: vou pagar por um erro que impedirá o julgador de apreciar todo o meu extenso e profundo direito, demonstrado à exaustão nas centenas de páginas dos autos do processo. Terei que ir atrás da solidariedade dos meus leitores e dos que me apoiam para enfrentar mais um momento difícil na minha carreira de jornalista, com quase meio século de duração. Espero contar com a atenção das pessoas que ainda não desistiram de se empenhar por um país decente. O Jornal Pessoal, que Lúcio Flávio edita há quase 20 anos, é uma publicação quinzenal produzida individualmente, da apuração à edição, e sem publicidade. Lúcio trabalhou, entre outros, em Realidade, Correio da Manhã e por muitos anos no Estadão, onde foi principal repórter da região e coordenador geral da cobertura dos correspondentes da Amazônia. Também teve atividades acadêmicas e deu cursos sobre a Amazônia em universidades dos Estados Unidos e da Europa.

Bloomberg assina acordo com Sindicato dos Jornalistas de SP

 A Bloomberg do Brasil assinou no último dia 9/2 um documento com o Sindicato dos Jornalistas de São Paulo pelo qual reconhece seu caráter de Agência de Notícias e acata o acordo coletivo dos profissionais de jornais e revistas da Capital paulista. Segundo o presidente do Sindicato José Augusto Camargo, a negociação foi demorada porque implicou diversas trocas de documentos em inglês entre a entidade e a matriz da empresa nos Estados Unidos até que se chegasse ao texto final, bilíngue. Com isso, a partir de agora os jornalistas da Bloomberg do Brasil passam a ter todos os benefícios da categoria, principalmente no que se refere a piso salarial e jornada de trabalho. Guto classifica o acordo como “a primeira vitória do Sindicato em defesa dos jornalistas que trabalham em internet. Desde??? ano passado, estamos lutando para regularizar a situação dos profissionais do setor que estão vinculados indevidamente ao Sindicato dos Trabalhadores nas Empresas e Cursos de Informática (Sindiesp), que tem Convenção Coletiva de Trabalho totalmente diferente da dos jornalistas”. Ele disse que esse acordo reforça a luta da entidade, que tem pressionado outras empresas de internet no mesmo sentido, acionando inclusive o Ministério Público do Trabalho para analisar as medidas a serem tomadas (ver J&Cia 832). Uma fonte da Fenaj disse a J&Cia que, diferentemente das empresas que nasceram na internet, as organizações jornalísticas e de comunicação que montam portais independentes tendem a vincular seus profissionais aos sindicatos dos jornalistas, “principalmente para aproveitar a estrutura e a experiência de negociação que já têm nessa área, pois em geral os sindicatos de internet englobam até empregados de lojas e cursos de informática”.

Memórias da Redação

 A história desta semana é novamente uma colaboração de Sandro Villar (sandro.villar@hotmail.com), correspondente do Estadão em Presidente Prudente.

Surpresa desagradável

Tem sujeito que não pode ver um rabo de saia que logo dá um jeito de se aproximar da mulher sem medir as consequências. Um cara assanhado – ou tarado mesmo –, quando se trata de saia, só dispensa padre e escocês. Mas, dependendo do modelo da batina e da saia, padre e escocês também correm risco. Um famoso colunista de jornal tinha fama de Casanova, embora já fosse Casavelha. Sabem como é: a idade chega para todos, exceto para a Vera Fischer. Seu nome e o veículo serão preservados por motivos óbvios. Ele – o colunista em questão – não podia ver mulher, ficava ouriçado e partia para a conquista. Como aquela vez no centro de São Paulo, depois de almoçar com diretores do jornal onde escrevia e onde desfrutava de enorme prestígio. Encurtando conversa: o nosso herói tinha um Ibope alto, quer dizer, era muito lido pelos leitores.

Depois do almoço num restaurante chique da avenida São Luiz, que não sei se ainda existe, Dodô (chamemo-lo assim) se despediu dos diretores e foi dar uma volta pelo centro para fazer a digestão. Logo depois de entrar na avenida Ipiranga, deu de cara com uma baita loira, tipo Kim Novak, para os mais velhos, ou tipo Kim Bassinger, para a moçada contemporânea. Comparações não interessam muito nessa narrativa, mas que a mulher era de fechar o comércio e a indústria lá isso era. Ou mais que isso: era dessas de fazer rei abdicar e pastor abandonar o púlpito. Não só Dodô como também qualquer homem, seja metrossexual ou centimetrossexual (já tem isso?), tentaria conquistar a loira em questão.  

Como não era bobo nem nada, ele percebeu que ela, apesar de não ser gandula, tinha dado bola e a maior trela. “Essa está no papo”, deve ter pensado. Dodô se aproximou, puxou conversa e, papo vai papo vem, confirmou que a moça estava mesmo no papo. A mulher não fazia o gênero loira burra. Ao contrário, ela sabia das coisas e estava por dentro dos acontecimentos. Ficou encantada quando Dodô se identificou e, para espanto dele, ela o lia no jornal. Na verdade, o colunista conheceu uma fã de carteirinha, o que facilitou a conquista. Depois de uns dez minutos de prosa, ele fez a proposta nada indecente. Convidou-a para passar umas horas num drive-in que ficava em Interlagos. E aqui cabe um esclarecimento necessário: naquela época ainda não havia motéis em São Paulo, e conquistador que não tinha apartamento levava a mulher ao drive-in.

Com o “sim” dela, concordando com o chamado hoje em dia de sexo consensual, Dodô ligou o carro e lá foi o casal desfrutar de umas horas de prazer. Assim que entrou no drive-in, Dodô esclareceu à moça que não podia ficar a tarde toda com ela, já que precisava voltar ao jornal para escrever o artigo do dia seguinte. Aí veio a atendente e colocou, em cada porta do carro, as bandejas dos drinques e salgadinhos. E depois? Bem, aí a cuíca começou a roncar. Houve as preliminares de praxe, com mil beijos (está bem, deixo por 999) e amassos.

Mas, na hora do pega pra capar, Dodô teve uma surpresa desagradável, assim como os americanos tiveram em Falujah, no Iraque. Ao pôr a mão na Zona do Agrião, ele apalpou um “taco” ou uma “caixa de câmbio”, se vocês preferem tais epítetos para o bilau. Em suma, meus cupinchas: a “mulher” era um travesti. Transtornado, fora de si, ele enxotou o travesti, deu ré e saiu em disparada do drive-in sem pagar a conta. Só que, ao passar pela avenida Interlagos, notou que os transeuntes olhavam para o carro e davam sonoras gargalhadas. É que, na confusão, Dodô se esqueceu de retirar as bandejas e, com o equipamento, o automóvel parecia um avião prestes a decolar. Só depois de andar um bom trecho é que ele percebeu a mancada. Parou o carro, jogou as bandejas fora e foi para o jornal. Contou o episódio a um primo e, segundo o parente, Dodô está menos assanhado, mesmo que dele se aproxime uma loiraça, como aquela da avenida Ipiranga. Afinal, as aparências enganam e “ela” pode ser ele, que ainda não fez operação para mudar de sexo.




(Leitores que quiserem colaborar com histórias engraçadas ou curiosas de redações podem enviá-las diretamente para a redação deste J&Cia, pelo baroncelli@jornalistasecia.com.br)



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