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São Paulo,

Nair Suzuki deixa o Estadão

Nair Keiko Suzuki, editora-assistente de Economia e Negócios do Estadão, decidiu encerrar na última 2ª.feira (6/5) sua segunda passagem de oito anos pelo jornal. Segundo informou a este J&Cia, o motivo principal foram as pressões de familiares, que insistiam para que reduzisse seu ritmo de trabalho após 44 anos de profissão. Mas, embora sequer insinue, certamente pesou na decisão o recente corte por que passou o jornal, que provocou aumento de tensão e de trabalho. Por ora, garante não ter planos profissionais: “Estou encerrando mais um ciclo de oito anos. Vou ficar mais perto da família, curtir minha netinha que mora em Uruguaiana mas está vindo aí, descansar... Só mais à frente, se não me acostumar a esse novo ritmo, decidirei o que fazer” (quem a conhece aposta que esse “mais à frente” não vai demorar muito). Na primeira passagem dela pelo Estadão, de 1986 a 1994, atuou como sub de Economia. Dois anos depois, período em que editou a revista Notícias Fiesp, iniciaria outro ciclo de oito anos, agora na Gazeta Mercantil, onde entrou para coordenar o caderno de Empresas e depois passou a adjunta do editor-chefe. Antes, teve três passagens pela sucursal do JB, duas pela Agência Folhas e uma na Folha de S.Paulo, também por oito anos (1975-1983), na pauta da Economia. Atuou ainda em IstoÉ e na extinta Afinal. O contato de Nair é nairsuzuki@gmail.com.

Brasil Econômico entra em nova fase

O Brasil Econômico monta a redação do Rio, que deixa de ser sucursal e passa a sede do jornal, com nomes conhecidos no mercado. Chamam a atenção a coluna de Nadja Sampaio (ex-Defesa do consumidor de O Globo) e o Informe New York de Heloisa Villela.Para a equipe da editora-executiva Sônia Soares chegam Josete Goulart, editora de Finanças, vinda de Brasília, e Rachel Cardoso, sub de Empresas, vinda de São Paulo. Foram contratados Flávia Galembeck, editora de Empresas; Paulo Henrique Noronha, editor de Brasil; Eliane Velloso, editora-assistente de Finanças; Nicola Pamplona, repórter especial (que deixou a coordenação de imprensa da Transpetro); e Cassiano Viana, repórter (ex-Agência CMA). Continuam na casa Érica Ribeiro, antes repórter e agora editora-assistente de Empresas, mantendo sua coluna às 2as.feiras com o novo título de Plano de negócios, e a repórter Gabriela Murno. Desde 6/5 o jornal circula com novo projeto gráfico – de André Hippert,com Renata Maneschy –, em papel-jornal e não mais na cor salmão, com espaços abertos que deixam o texto arejado e destaques para artes e fotos, incluindo um editorial semanal apenas de imagens, na seção À vista.

São Paulo – Na redação de São Paulo, Adriana Teixeira foi mantida como editora-chefe. Todos os outros editores – exceto o de Mundo, Gabriel de Sales, que permaneceu em São Paulo –, passaram a repórteres especiais; são dez. A coluna Mosaico, editada por Pedro Venceslau, foi para a página 2 e aumentou de tamanho. Rita Karam, que cuidava de projetos especiais, e Cristina Ribeiro de Carvalho, de Empresas, saíram na semana passada. Outra que deixou o jornal foi Juliana Ribeiro (julli.ribeiro@gmail.com e 11-99309-1332), que havia um ano era repórter de Empresas e antes disso foi por dois anos repórter da Dinheiro Rural. Ela também atuou no portal Sou Agro e colaborou como freelancer em algumas edições da revista Globo Rural.

Veja Brasília monta equipe e planeja lançamento para junho

A edição de estreia da Veja Brasília será oficialmente lançada em 8/6, com direito a festa, cujos detalhes ainda estão sendo acertados. Assim como Veja São Paulo, Veja Rio e Veja BH, a edição brasiliense será pautada por reportagens sobre a cidade nas áreas de entretenimento, lazer, programas e serviços. A revista será dirigida por Ricardo Castanho (rcastanho@abril.com.br), vindo da Veja São Paulo, onde era editor-chefe de Veja Cidades. A redação (61-3315-7510) terá 22 profissionais, todos de Brasília ou com forte ligação com a cidade, divididos entre texto, arte e site. A editora-chefeserá Viviane Kulczymski. Com passagens por Veja SP, Estadão e Folha, ela está há dois anos no DF, para onde foi acompanhando o marido e para atuar como frila. Érika Klingl, vinda do Correio Braziliense, será a editora de Roteiros. Além dela, compõem a equipe, entre outros, os repórteres Gabriela Almeida, Felipe Morais, Lilian Tahan, Olívia Meireles (ex-Correio Braziliense) e Ulysses Campbell – quetambém foi do Correio, mas ultimamente estava frilando em São Paulo.

Lance faz mudanças na redação, cria editoria e forma Academia Lance

O Lance promoveu mudanças em suas redações com o objetivo de agilizar a produção e o fechamento de conteúdo das plataformas do grupo. A primeira foi a criação da editoria Conteúdos Externos, a cargo de Tiago Pereira, que deixou o núcleo Botafogo. Ele vai cuidar do programa Craques do Futuro, do Serviço de Atendimento ao Torcedor e da troca de informações entre a Rede Nacional Lance. Ao núcleo Botafogo chegou Vinícius Andrade, ex-Rádio Tupi e Metro. Outra novidade é a formação da Academia Lance, um time de 60 especialistas de várias áreas relacionadas ao esporte (medicina, direito, marketing, gestão, entre outras). A coordenação é de Claudinei Queiroz, que deixou o Lancenet em São Paulo. Nas redações, os editores-executivos regionais Daniel Bortoletto e Mateus Benato passam a coordenar, da pauta à edição, todo o material de Lance, Lancenet, LanceTV e LanceMobile. Já Flávio Garcia e Alessandro Abate, respectivamente editores de fechamento de Rio e São Paulo, vão trabalhar como executivos, discutir capas e executá-las. Por fim, Aurino Leite, que passou pelo jornal entre 2001 e 2003, vai chefiar a editoria do Vasco. O editor-chefe do Grupo Lance é Luiz Fernando Gomes.

Época tem novo projeto gráfico

q A revista Época foi às bancas esta semana com novo projeto gráfico e a reformulação de algumas seções. Helio Gurovitz, diretor de Redação do Grupo Época da Editora Globo, disse a J&Cia que o mais relevante do projeto do diretor de Arte Marcos Marques e do editor-executivo de Arte Alexandre Lucas “é valorizar as autorias e criar um produto jornalístico com uma voz própria, formada pela união das vozes dos seus autores. Nossa intenção é ter um tom e um olhar originais para os temas da pauta”. No texto da revista em que apresenta as mudanças, Helio informa que o objetivo delas é tornar mais claras e aprofundar algumas características de Época, citando entre estas a qualidade de fotos, quadros e gráficos, bem como “a clareza, limpeza e organização de suas páginas”, além da convivência da apuração “criteriosa e equilibrada” dos fatos com os diferentes estilos de prosa e tons da equipe de texto: “Época cultiva a reputação de ser uma revista escrita por autores – e continuaremos assim”. E para destacar o estilo desses autores, explica, criaram vinhetas “que representam não apenas o tema ou a área abordada, mas também o olhar e o tom de quem escreve”. Com isso, algumas seções, como Mente Aberta, tornam-se vinhetas a partir desta edição. Já as seções Tempo (concentrada nas notícias e reportagens exclusivas), Ideias (voltada para o conhecimento) e Vida (destinada a contar histórias inspiradoras e sofisticadas), que ele classifica como “os pilares de nosso projeto editorial”, permanecem intocadas.

q Como parte desse processo de reforçar autorias, Helio Gurovitz informou que os editores e os repórteres passaram a trabalhar em pools, o que para ele aumenta a sinergia da equipe, favorece as trocas e intercâmbios e permite que os primeiros também façam matérias: “Na realidade, apenas tornamos oficial o que já vinha ocorrendo na prática”.

Época São Paulo – q Também Época São Paulo estreou mudanças em seu projeto gráfico esta semana, mas, segundo Marcos Marques, foi “um banho de loja”: “Não foi uma mudança muito radical, exceto no logo, mas dá para perceber que com pequenas mudanças a revista já fica com uma cara nova e mais moderna”. Para ele, embora não haja prazo determinado para se mudar o projeto gráfico de uma revista, “no geral, ele fica velho em três ou quatro anos. Parece um ciclo, mas se a revista ficar muito tempo com a mesma cara ela envelhece e fica chata”. Nesse processo de renovação da edição paulistana ele ressalta o trabalho do editor de Arte Fernando Pires e dos designers Darlene Cossentino, Maitê Hotoshi e Alyne Tanin.

O adeus a Eduardo Hiroshi, editor do caderno Máquina, do Agora SP

Quando se despediu da redação do Agora S.Paulo no final da manhã desta 2ª.feira (6/5), após entregar um carro que estava avaliando, o editor do caderno Máquina Eduardo Hiroshiavisou aos colegas de redação que estaria incomunicável e não retornaria mais naquele dia. Algum tempo depois, já fora da redação, atualizou sua foto de capa no facebook e enquanto colegas comentavam a nova imagem – em preto e branco, aparentemente em uma redação – preparava-se para postar o texto que pegaria a todos de surpresa, aquele em que se despedia deles e da vida. Nascido em São Carlos, no interior paulista, sua paixão pelo jornalismo começou logo cedo. Em seu obituário, publicado pela Folha de S.Paulo nesta 3ª.feira, o jornal destacou uma carta que ele escreveu em 1987, então com nove anos: “Eu amo a Folhinha (...). Por isso, gostaria que vocês fizessem uma reportagem sobre o piano. Como ele é por dentro, como produz o som, quem foi seu inventor etc.”. Dois meses depois, a reportagem era publicada pelo suplemento. Seu primeiro emprego foi no jornal Primeira Página, em sua cidade natal, aos 15 anos de idade, mas teve que interromper a atividade quando entrou para a turma de Jornalismo da Unesp, em Bauru.

“O Hiro era o cara que reunia a galera, agitava o Dadica (Diretório Acadêmico), conversava com todos, falava com orgulho dos seus gostos, inventava suas musas”, lembra Patrícia Paixão, colega de classe que hoje é professora da Faculdade do Povo (FAP-SP). “Um cara marcante, que sempre me pareceu alegre, mas nos últimos tempos andava depressivo. Era querido por todos, aquela figura que não pode faltar no reencontro da turma porque faz falta”. Depois de formado, retornou a São Carlos, onde ingressou na área automotiva atendendo à conta da Volkswagen pela Lide Comunicação. Mudou para o outro lado do balcão em 2003, em sua primeira passagem pelo Máquina, como repórter, chegando já naquela oportunidade a assumir a edição do caderno. Entre 2008 e 2010 foi repórter da revista Car and Driver e em abril daquele mesmo ano retornou ao Agora, novamente como editor do Máquina. Conhecido por ser “pé frio” durante seus plantões, quando geralmente ocorriam os acontecimentos mais impactantes, era definido pelos colegas como uma pessoa metódica, porém muito amável, gentil e bem-humorada. Também era comum chamar a atenção por seus momentos depressivos, e já havia algum tempo comentava em postagens pelo facebook ou pessoalmente, aos mais próximos, sobre grandes mudanças que iriam acontecer em sua vida, sem nunca deixar claro quais seriam.

Desde a notícia de sua morte, que tomou rápida comoção em virtude de ter publicado sua carta de despedida no facebook, muitas foram as homenagens e os textos de colegas que estudaram, começaram a carreira com ele ou conviveram ao seu lado em mais de 13 anos atuando no segmento automotivo. Um dos textos mais marcantes, até pela grande amizade desde a época de faculdade, foi do assessor de Imprensa do Festival de Teatro de Rio Preto Mateus Bueno de Camargo. Em um trecho ele lembra: “Faz anos que você tá nessa, né? De mudar de vida, de mudanças pra 2013. Você deve se lembrar que quando postava aquelas merdas eu escrevia embaixo: vai se matar, japonesa? E você curtia. Pensei que estava me curtindo, mas estava era curtindo a ideia, né? Coisa feia... Hiro, você morreu como viveu: se precipitando e tentando acertar. Nunca você errou tanto! Um beijo, até breve e vamos que a vida pede urgência e amanhã tem mais!”.

O editor do site Carpress e colunista do informativo Jornalistas&Cia Imprensa Automotiva Luís Perez publicou em seu blog (http://blogdoluisperez.blog.uol.com.br/) uma homenagem onde também relembra o perfil de Hiroshi, querido por tantos, e cita sobre essa mudança a que ele muitas vezes se referiu: “Fazia o que amava – e amava trabalhar com automóveis. Por outro lado, parecia infeliz. Externava isso nas redes sociais, mas confesso que sempre tive dúvidas de onde terminava o personagem e começava o ser humano. Alimentava folclores sobre si mesmo (que o diga quem tinha medo das grandes tragédias que insistiam em acontecer durante seus plantões) e, talvez até por isso, jogou uma cortina de fumaça que não nos deixava ver até que ponto seria capaz fazer o que fez. Há muitos anos falava na ‘grande mudança’. Cansei de perguntar a ele o que seria isso, mas nunca ouvi uma resposta convincente. Fica um certo remorso de não tê-lo ajudado a não tomar essa atitude de hoje”.

q Relatos de colegas de redação dão conta de que Hiroshi retornou ao prédio onde morava, na Vila Mariana, mas nem chegou a entrar em casa, dirigindo-se diretamente à cobertura, no 10º andar, de onde partiu. Em sua carta de despedida, que você pode conferir na íntegra pelo em http://bit.ly/18OjU2z, ele fala de histórias e lembranças que vinha recuperando e contando nos últimos dias em busca de motivação, e agradece aos amigos de profissão, em especial àqueles que lhe deram oportunidades no setor, e à família de seus pais, e encerra: “Antes que eu me arrependa: Adeus. Até a próxima”. Uma dessas histórias, inclusive, ele enviou em 3/5 a Fernando Soares, editor deste J&Cia e de J&Cia Imprensa Automotiva, para repercutir a notícia sobre o recente falecimento de Wolfgang Sauer, presidente da Volkswagen do Brasil entre 1973 e 1989, onde destaca: “Cresci lendo a Quatro Rodas na década de 1980. Naquela época havia apenas quatro marcas (excluindo-se Gurgel, Puma, Miura etc.) e os lançamentos eram escassos. A revista, então, cobria fartamente os acontecimentos da indústria e seus bastidores. Sauer era um frequentador dessas páginas. Trabalho há 13 anos no jornalismo automotivo e realizei vários sonhos, mas nunca tive a oportunidade de conhecer o Sauer pessoalmente. Ou melhor, foi por pouco: quando saiu sua biografia, recebi convite para a noite de autógrafos, mas eu estava em fechamento no jornal e não pude ir. Lamento até agora por não poder apertar a mão de um homem que eu admirei desde a infância e que não está mais entre nós.”.

Solteiro e sem filhos, Eduardo Hiroshi faria 36 anos no próximo domingo (12/5). Apesar de ter deixado um bilhete em seu bolso, onde dizia querer ser cremado, foi enterrado na tarde desta 3ª.feira (7/5) no cemitério Nossa Senhora do Carmo, em São Carlos.

Memórias da Redação

A história desta semana é novamente uma colaboração de Plínio Vicente da Silva (plinio.vsilva@hotmail.com), ex-Estadão, atualmente professor universitário e assessor especial na Prefeitura de Boa Vista, em Roraima.

Mensageiro do ar

Vivo e trabalho há quase 30 anos numa das regiões mais isoladas do Brasil, o extremo-norte da Amazônia. Quase toda coberta por floresta fechada, dividindo-se entre os alagados ao sul, savana no centro e montanhas ao norte, nas fronteiras com a Guiana e a Venezuela, essa área é tão extensa que há lugares, como as centenas de pequenas vilas e aldeias indígenas, aonde só se chega pelo céu, pelos rios ou por raras trilhas que arremedam estradas.

Nos meados de 1987 a grande invasão de garimpeiros em Roraima trouxe ao ex-território federal mais de 50 mil pessoas, que vieram se aventurar nas incontáveis corrutelas abertas no coração da terra dos ianomâmi. Tanta gente vindo e indo fez o espaço aéreo de Boa Vista se transformar num cenário de guerra, pontilhado por centenas de avionetas, como dizem os venezuelanos, cruzando o céu da cidade. Os registros da época apontavam o aeroporto local como um dos três mais movimentados do Brasil, só perdendo para o Galeão e Congonhas. Eram mais de 400 aeronaves estacionadas no pátio e nas manhãs e tardes o intervalo entre decolagens e aterrissagens chegava a ser de pouco mais de dois minutos.

Certo dia, num final de setembro, recebi ligação do Centro de Produção, responsável pela coordenação do tráfego entre as redações de Estadão, JT e Agência Estado e as sucursais e correspondentes. Não me lembro de quem era a voz do outro lado que me passou a seguinte mensagem: “Chegou a informação de que garimpeiros mataram índios num lugar chamado Novo Cruzado, aí em Roraima. Mande matéria de 30 linhas, se possível com fotos”. E então veio o pedido, marcado pela falta de conhecimento que muitos brasileiros ainda têm sobre a Amazônia: “Dá pra você pegar o carro, ir até lá e mandar o texto pela escuta até o meio da tarde? Tem algum jeito de transmitir fotos?”.

Minha primeira reação foi de riso, mas me contive. Expliquei didaticamente que o local do conflito ficava no vale do rio Paapiú, uma imensa área que abriga várias aldeias indígenas da etnia ianomâmi, a cerca de 450 km de Boa Vista e aonde se chega de avião depois de hora e meia de voo. Cumprir pauta naquelas paragens implica passar por lá um bom tempo, pelo menos uma semana. Então, não bastava descer na pista do Paapiú. Em terra, era preciso depois caminhar ainda por cerca de um dia inteiro por trilhas semiabertas na floresta até chegar a Novo Cruzado, que já nem existe mais. Dependendo de situações como aquela – as notícias davam conta de que estava em curso uma guerra entre índios e garimpeiros – matéria com fotos só depois de uns dez dias, já de volta a Boa Vista. Menos que isso a viagem não compensava.

No meio da tarde a Produção voltou a ligar. A Nacional autorizara a viagem de avião e queria matéria especial não só sobre o conflito, mas também mostrando o clima de beligerância que se espalhara pelos garimpos roraimenses nas terras ianomâmi. A recomendação era de que eu viajasse o mais rápido possível. Havia, entretanto, um problema: com a demanda em alta, uma “perna” de avião, como se diz por aqui, estava custando os olhos da cara e eu não tinha dinheiro para bancá-la à vista e depois receber o reembolso. Por isso, só viajaria no dia seguinte, assim que a remessa bancária caísse na minha conta. Minha ideia era me estabelecer na corrutela, ouvir pilotos e garimpeiros e fazer a matéria em cima desses depoimentos. Junto, levaria uma velha Yashica 35 mm, que dava pro gasto.

Ainda no meio da tarde um táxi parou em frente à minha casa. Dele desceram um rapaz loiro, olhos azuis, e outro amorenado, cabelos crespos, máquina fotográfica ao ombro. Com sotaque bastante carregado o loiro se apresentou: Paul Murally, inglês, correspondente no Brasil da agência de noticias Reuters; seu companheiro era Wanderley Rodrigues, o fotógrafo. Haviam me localizado por meio da sucursal do Estadão no Rio e vieram me procurar para ajudá-los na cobertura do conflito do Novo Cruzado. A proposta era me levar junto, com todas as despesas pagas. Claro que topei, mas foi aí que cometi um erro: não avisei São Paulo que viajaria com eles naquele mesmo dia.

A corrutela do Paapiú parecia uma daquelas cidades do velho oeste americano. A pista servia de rua principal, com oficinas, depósitos de combustíveis e pátio de aeronaves de um lado; armazéns, cantinas e moradias do outro. Atrás desse lado, seguindo as margens do igarapé, ficavam o cabaré e os quartinhos abafados, úmidos e emporcalhados onde mulheres vendiam o corpo nas noites quentes da floresta. Aliás, tudo lá era pago a peso de ouro. Nessa época o grama estava cotado, lá no garimpo, a cerca de 90 cruzados novos. Assim, a noite com uma “prima” custava 10 gramas; churrasco a 5 gramas; prato feito, 2 gramas; latinha de cerveja ou refrigerante, 1 grama.

Para minha sorte Paul nos abrigou nas barracas de um acampamento bem montado, construído na cabeceira da pista. Algumas comodidades impensáveis num garimpo faziam a diferença: energia elétrica fornecida por gerador, banheiro com chuveiro quente (uma motobomba puxava a água do igarapé e abastecia o depósito suspenso de dois mil litros), cozinheira, garçonete e refeitório.

A estrutura toda pertencia a um nissei, Roberto Nakamura, que também alugava helicópteros. Foi assim que pude fazer belas matérias, indo a vários lugares em voos pelos quais meu amigo inglês pagou US$ 2.000 a hora. Ou seja, no final de uma semana ele já havia bancado cerca de 20 mil dólares em hospedagem e em voos para vários garimpos: Novo Cruzado, Raimundo Nenê, Caveira, Constituição etc., todos na fronteira com a Venezuela.

Uma das precauções que se deve tomar ao fazer uma viagem dessas é tentar suprir a total falta de comunicação, pois em muitos lugares o sujeito acaba isolado no meio da selva por vários dias. Assim, já escolado por viagens anteriores, não abri mão de levar na bagagem um radio de pilhas, desses com várias faixas de ondas. Esse tipo de aparelho é companheiro inseparável não só dos garimpeiros, mas também de quem mora nas localidades mais remotas da região amazônica.

Certa noite, depois do jantar, enquanto jogávamos cartas entre uma dose e outra de um escocês puro sangue, liguei o radinho para ouvir o Mensageiro do Ar, lendário programa transmitido em ondas curtas pela extinta Rádio Nacional de Roraima, integrante da rede de emissoras oficiais do Governo Federal. Benjamim Monteiro, radialista roraimense tão lendário quanto o programa, começou a ler os bilhetes com as mensagens que recebera naquele dia e num deles pediu: “Atenção jornalista Plínio Vicente, lá na pista do Paapiu. Sua esposa Salete manda dizer que o pessoal do Estadão está ligando de hora em hora atrás da matéria que você prometeu. É pra você voltar imediatamente, pois estão todos preocupados com o seu desaparecimento”.

Coincidência ou não, nossa volta estava programada para o dia seguinte. Assim que cheguei em casa, e depois de alguns momentos com a mulher e os filhos, escrevi a matéria, coloquei num envelope junto com alguns fotogramas devidamente identificados que o Wanderley me deu com a recomendação de o jornal não lhe dar crédito. Explicou-me que as fotos da Reuters não podiam ser vendidas dentro do Brasil devido a restrições contratuais.

Voltei ao aeroporto e despachei o material. Nessa época não havia em Boa Vista nem telex nem aparelho de telefoto. Exceção aos pequenos textos, transmitidos por telefone, o material mais elaborado era mandado via aérea, em envelopes especiais levados pelos pilotos e deixados nos balcões da Varig ou da Cruzeiro do Sul.

Voltei para casa e só então liguei para o Estadão. Disseram-me que Rodrigo Mesquita, diretor da Agência Estado, queria falar comigo. Assim que atendeu ele me deu a maior bronca: “Como você me faz uma coisas dessas? Você lá tem condições físicas para ir embora pro meio da selva fazer matéria de garimpo? Ficou maluco?”. Depois, mais calmo, perguntou: “Afinal, fez as matérias? Conseguiu as fotos?”. Ficou satisfeito com a resposta, elogiou meu profissionalismo, pediu-me que não me arriscasse mais e por fim fez uma última pergunta: “Afinal, como soube, lá no fim do mundo, que estávamos preocupados com o seu sumiço?”. Foi nesse dia que o Mensageiro do Ar mostrou o seu valor e a importância que tem para quem vive isolado no interior da Amazônia. Ainda hoje, nos sete dias da semana, o velho Benja continua anunciando às 10 da noite: “Começa agora o Mensageiro do Ar, voz e ouvidos da Amazônia”. Durante uma hora e meia ele manda seus recados pelas ondas médias, curtas e longas agora da Rádio Roraima, sucessora da Nacional.

Nota da Redação – Histórias como essa, que Plínio tem contado neste espaço nos últimos anos, levaram Rosana Zaidan, responsável pelo jornal A Cidade, de Ribeirão Preto (interior de São Paulo, onde ele foi criado), a considerá-lo “boa pauta” para uma entrevista, tarefa que entregou a Sidnei Quartier, contemporâneo de Plínio no Estadão. O resultado, publicado em três páginas na edição do jornal no domingo passado (5/5), você confere no http://migre.me/erVDW. 



(Leitores que quiserem colaborar com histórias engraçadas ou curiosas de redações podem enviá-las diretamente para a redação deste J&Cia, pelo baroncelli@jornalistasecia.com.br)

Esses são alguns dos destaques da edição desta semana do informativo Jornalistas&Cia, que circula por redações e assessorias de todo o País



 
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