Nair Suzuki deixa o Estadão
Nair Keiko Suzuki, editora-assistente de Economia e
Negócios do Estadão, decidiu encerrar na última 2ª.feira (6/5) sua segunda
passagem de oito anos pelo jornal. Segundo informou a este J&Cia, o motivo
principal foram as pressões de familiares, que insistiam para que reduzisse seu
ritmo de trabalho após 44 anos de profissão. Mas, embora sequer insinue,
certamente pesou na decisão o recente corte por que passou o jornal, que
provocou aumento de tensão e de trabalho. Por ora, garante não ter planos
profissionais: “Estou encerrando mais um ciclo de oito anos. Vou ficar mais
perto da família, curtir minha netinha que mora em Uruguaiana mas está vindo
aí, descansar... Só mais à frente, se não me acostumar a esse novo ritmo,
decidirei o que fazer” (quem a conhece aposta que esse “mais à frente” não vai
demorar muito). Na primeira passagem dela pelo Estadão, de 1986 a 1994, atuou
como sub de Economia. Dois anos depois, período em que editou a revista
Notícias Fiesp, iniciaria outro ciclo de oito anos, agora na Gazeta Mercantil,
onde entrou para coordenar o caderno de Empresas e depois passou a adjunta do
editor-chefe. Antes, teve três passagens pela sucursal do JB, duas pela Agência
Folhas e uma na Folha de S.Paulo, também por oito anos (1975-1983), na pauta da
Economia. Atuou ainda em IstoÉ e na extinta Afinal. O contato de Nair é
nairsuzuki@gmail.com.
Brasil Econômico entra em nova fase
O Brasil
Econômico monta a redação do Rio, que deixa de ser sucursal e passa a sede do
jornal, com nomes conhecidos no mercado. Chamam a atenção a coluna de Nadja Sampaio
(ex-Defesa do consumidor de O Globo) e o Informe New York de Heloisa
Villela.Para a equipe da editora-executiva Sônia Soares
chegam Josete Goulart, editora de Finanças, vinda de Brasília, e Rachel
Cardoso, sub de Empresas, vinda de São Paulo. Foram contratados Flávia
Galembeck, editora de Empresas; Paulo Henrique Noronha, editor de
Brasil; Eliane Velloso, editora-assistente de Finanças; Nicola
Pamplona, repórter especial (que deixou a coordenação de imprensa da
Transpetro); e Cassiano Viana, repórter (ex-Agência CMA). Continuam na
casa Érica Ribeiro, antes repórter e agora editora-assistente de
Empresas, mantendo sua coluna às 2as.feiras com o novo título de Plano
de negócios, e a repórter Gabriela Murno. Desde 6/5 o jornal circula
com novo projeto gráfico – de André Hippert,com Renata
Maneschy –, em papel-jornal e não mais na cor salmão, com espaços
abertos que deixam o texto arejado e destaques para artes e fotos, incluindo um
editorial semanal apenas de imagens, na seção À vista.
São
Paulo
– Na redação de São Paulo, Adriana
Teixeira foi mantida como editora-chefe. Todos os outros editores – exceto o
de Mundo, Gabriel de Sales, que
permaneceu em São Paulo –, passaram a repórteres especiais; são dez. A coluna Mosaico, editada por Pedro
Venceslau, foi para a página 2 e aumentou de tamanho. Rita Karam, que cuidava de projetos
especiais, e Cristina Ribeiro de
Carvalho, de Empresas, saíram na semana passada. Outra que deixou o jornal
foi Juliana Ribeiro (julli.ribeiro@gmail.com
e 11-99309-1332), que havia um ano era repórter de Empresas e antes disso foi por
dois anos repórter da Dinheiro Rural. Ela também atuou no portal Sou Agro e
colaborou como freelancer em algumas
edições da revista Globo Rural.
Veja Brasília monta equipe e planeja
lançamento para junho
A edição de estreia
da Veja Brasília será oficialmente lançada em 8/6, com direito a festa, cujos detalhes
ainda estão sendo acertados. Assim como Veja São Paulo, Veja Rio e Veja BH, a
edição brasiliense será pautada por reportagens sobre a cidade nas áreas de
entretenimento, lazer, programas e serviços. A revista será dirigida por Ricardo Castanho (rcastanho@abril.com.br), vindo da Veja São Paulo, onde era
editor-chefe de Veja Cidades. A redação (61-3315-7510) terá 22 profissionais,
todos de Brasília ou com forte ligação com a cidade, divididos entre texto,
arte e site. A editora-chefeserá Viviane Kulczymski. Com passagens por Veja SP, Estadão e Folha,
ela está há dois anos no DF, para onde foi acompanhando o marido e para atuar
como frila. Érika Klingl, vinda do Correio Braziliense, será a editora de
Roteiros. Além dela, compõem a equipe, entre outros, os repórteres Gabriela
Almeida, Felipe Morais, Lilian Tahan,
Olívia Meireles (ex-Correio
Braziliense) e Ulysses Campbell – quetambém foi do Correio, mas ultimamente
estava frilando em São Paulo.
Lance faz mudanças na
redação, cria editoria e forma Academia Lance
O Lance promoveu mudanças em suas redações com o objetivo de agilizar a
produção e o fechamento de conteúdo das plataformas do grupo. A primeira foi a
criação da editoria Conteúdos Externos, a cargo de Tiago Pereira, que deixou o núcleo Botafogo. Ele vai cuidar do
programa Craques do Futuro, do Serviço
de Atendimento ao Torcedor e da troca de informações entre a Rede Nacional
Lance. Ao núcleo Botafogo chegou Vinícius
Andrade, ex-Rádio Tupi e Metro. Outra novidade é a formação da Academia
Lance, um time de 60 especialistas de várias áreas relacionadas ao esporte (medicina, direito,
marketing, gestão, entre outras). A coordenação é de Claudinei Queiroz, que deixou o Lancenet em São Paulo. Nas
redações, os editores-executivos regionais Daniel Bortoletto e Mateus Benato passam a coordenar, da
pauta à edição, todo o material de Lance, Lancenet, LanceTV e LanceMobile. Já Flávio Garcia e Alessandro Abate,
respectivamente editores de fechamento de Rio e São Paulo, vão trabalhar como
executivos, discutir capas e executá-las. Por fim, Aurino Leite, que passou pelo jornal entre 2001 e 2003, vai chefiar
a editoria do Vasco. O editor-chefe do Grupo Lance é Luiz Fernando Gomes.
Época tem novo projeto gráfico
q A revista Época foi às bancas esta semana com novo projeto
gráfico e a reformulação de algumas seções. Helio Gurovitz, diretor
de Redação do Grupo Época da Editora Globo, disse a J&Cia que o mais
relevante do projeto do diretor de Arte Marcos Marques e do
editor-executivo de Arte Alexandre Lucas
“é valorizar as autorias e criar um produto jornalístico com uma voz própria,
formada pela união das vozes dos seus autores. Nossa intenção é ter um tom e um
olhar originais para os temas da pauta”. No texto da revista em que apresenta
as mudanças, Helio informa que o objetivo delas é tornar mais claras e
aprofundar algumas características de Época, citando entre estas a qualidade de
fotos, quadros e gráficos, bem como “a clareza, limpeza e organização de suas
páginas”, além da convivência da apuração “criteriosa e equilibrada” dos fatos
com os diferentes estilos de prosa e tons da equipe de texto: “Época cultiva a
reputação de ser uma revista escrita por autores – e continuaremos assim”. E
para destacar o estilo desses autores, explica, criaram vinhetas “que
representam não apenas o tema ou a área abordada, mas também o olhar e o tom de
quem escreve”. Com isso, algumas seções, como Mente Aberta, tornam-se vinhetas
a partir desta edição. Já as seções Tempo (concentrada nas notícias e
reportagens exclusivas), Ideias (voltada para o conhecimento) e Vida (destinada
a contar histórias inspiradoras e sofisticadas), que ele classifica como “os
pilares de nosso projeto editorial”, permanecem intocadas.
q Como parte desse processo de reforçar autorias, Helio Gurovitz
informou que os editores e os repórteres passaram a trabalhar em pools, o que para ele aumenta a sinergia
da equipe, favorece as trocas e intercâmbios e permite que os primeiros também
façam matérias: “Na realidade, apenas tornamos oficial o que já vinha ocorrendo
na prática”.
Época São Paulo – q Também Época São Paulo estreou
mudanças em seu projeto gráfico esta semana, mas, segundo Marcos Marques, foi
“um banho de loja”: “Não foi uma mudança muito radical, exceto no logo, mas dá
para perceber que com pequenas mudanças a revista já fica com uma cara nova e
mais moderna”. Para ele, embora não haja prazo determinado para se mudar o
projeto gráfico de uma revista, “no geral, ele fica velho em três ou quatro
anos. Parece um ciclo, mas se a revista ficar muito tempo com a mesma cara ela
envelhece e fica chata”. Nesse processo de renovação da edição paulistana ele
ressalta o trabalho do editor de Arte Fernando
Pires e dos designers Darlene Cossentino, Maitê Hotoshi e Alyne Tanin.
O adeus a Eduardo
Hiroshi, editor do caderno Máquina, do Agora SP
Quando se despediu da redação do
Agora S.Paulo no final da manhã desta 2ª.feira (6/5), após entregar um carro
que estava avaliando, o editor do caderno Máquina Eduardo Hiroshiavisou aos colegas de redação que
estaria incomunicável e não retornaria mais naquele dia. Algum tempo depois, já
fora da redação, atualizou sua foto de capa no facebook e
enquanto colegas comentavam a nova imagem – em preto e branco, aparentemente em
uma redação – preparava-se para postar o texto que pegaria a todos de surpresa,
aquele em que se despedia deles e da vida. Nascido em São Carlos, no interior
paulista, sua paixão pelo jornalismo começou logo cedo. Em seu obituário,
publicado pela Folha de S.Paulo nesta 3ª.feira, o jornal destacou uma carta que
ele escreveu em 1987, então com nove anos: “Eu amo a Folhinha (...). Por isso,
gostaria que vocês fizessem uma reportagem sobre o piano. Como ele é por
dentro, como produz o som, quem foi seu inventor etc.”. Dois meses depois, a
reportagem era publicada pelo suplemento. Seu primeiro emprego foi no jornal
Primeira Página, em sua cidade natal, aos 15 anos de idade, mas teve que
interromper a atividade quando entrou para a turma de Jornalismo da Unesp, em
Bauru.
“O Hiro era o cara que reunia a
galera, agitava o Dadica (Diretório Acadêmico), conversava com todos, falava
com orgulho dos seus gostos, inventava suas musas”, lembra Patrícia
Paixão, colega de classe que hoje é professora da Faculdade do Povo
(FAP-SP). “Um cara marcante, que sempre me pareceu alegre, mas nos últimos
tempos andava depressivo. Era querido por todos, aquela figura que não pode
faltar no reencontro da turma porque faz falta”. Depois de formado, retornou a
São Carlos, onde ingressou na área automotiva atendendo à conta da Volkswagen
pela Lide Comunicação. Mudou para o outro lado do balcão em 2003, em sua primeira
passagem pelo Máquina, como repórter, chegando já naquela oportunidade a
assumir a edição do caderno. Entre 2008 e 2010 foi repórter da revista Car and
Driver e em abril daquele mesmo ano retornou ao Agora, novamente como editor do
Máquina. Conhecido por ser “pé frio” durante seus plantões, quando geralmente
ocorriam os acontecimentos mais impactantes, era definido pelos colegas como
uma pessoa metódica, porém muito amável, gentil e bem-humorada. Também era
comum chamar a atenção por seus momentos depressivos, e já havia algum tempo
comentava em postagens pelo facebook
ou pessoalmente, aos mais próximos, sobre grandes mudanças que iriam acontecer
em sua vida, sem nunca deixar claro quais seriam.
Desde a notícia de sua morte, que
tomou rápida comoção em virtude de ter publicado sua carta de despedida no facebook, muitas foram as homenagens e
os textos de colegas que estudaram, começaram a carreira com ele ou conviveram
ao seu lado em mais de 13 anos atuando no segmento automotivo. Um dos textos
mais marcantes, até pela grande amizade desde a época de faculdade, foi do
assessor de Imprensa do Festival de
Teatro de Rio Preto Mateus Bueno de Camargo. Em um trecho ele
lembra: “Faz anos que você tá nessa, né? De mudar de vida, de mudanças pra
2013. Você deve se lembrar que quando postava aquelas merdas eu escrevia
embaixo: vai se matar, japonesa? E você curtia. Pensei que estava me curtindo,
mas estava era curtindo a ideia, né? Coisa feia... Hiro, você morreu como
viveu: se precipitando e tentando acertar. Nunca você errou tanto! Um beijo,
até breve e vamos que a vida pede urgência e amanhã tem mais!”.
O editor do site Carpress e colunista do informativo Jornalistas&Cia
Imprensa Automotiva Luís Perez publicou
em seu blog (http://blogdoluisperez.blog.uol.com.br/) uma
homenagem onde também relembra o perfil de Hiroshi, querido por tantos, e cita
sobre essa mudança a que ele muitas vezes se referiu: “Fazia o que amava – e
amava trabalhar com automóveis. Por outro lado, parecia infeliz. Externava isso
nas redes sociais, mas confesso que sempre tive dúvidas de onde terminava o
personagem e começava o ser humano. Alimentava folclores sobre si mesmo (que o
diga quem tinha medo das grandes tragédias que insistiam em acontecer durante
seus plantões) e, talvez até por isso, jogou uma cortina de fumaça que não nos
deixava ver até que ponto seria capaz fazer o que fez. Há muitos anos falava na
‘grande mudança’. Cansei de perguntar a ele o que seria isso, mas nunca ouvi
uma resposta convincente. Fica um certo remorso de não tê-lo ajudado a não
tomar essa atitude de hoje”.
q Relatos de colegas de redação dão
conta de que Hiroshi retornou ao prédio onde morava, na Vila Mariana, mas nem
chegou a entrar em casa, dirigindo-se diretamente à cobertura, no 10º andar, de
onde partiu. Em sua carta de despedida, que você pode conferir na íntegra pelo em http://bit.ly/18OjU2z, ele fala de histórias e lembranças que vinha
recuperando e contando nos últimos dias em busca de motivação, e agradece aos
amigos de profissão, em especial àqueles que lhe deram oportunidades no setor,
e à família de seus pais, e encerra: “Antes que eu me arrependa: Adeus. Até a
próxima”. Uma dessas histórias, inclusive, ele enviou em 3/5 a Fernando Soares, editor deste J&Cia e de J&Cia
Imprensa Automotiva, para repercutir a notícia sobre o recente falecimento de
Wolfgang Sauer, presidente da Volkswagen do Brasil entre 1973 e 1989, onde
destaca: “Cresci lendo a Quatro Rodas na década de 1980. Naquela época havia
apenas quatro marcas (excluindo-se Gurgel, Puma, Miura etc.) e os lançamentos
eram escassos. A revista, então, cobria fartamente os acontecimentos da
indústria e seus bastidores. Sauer era um frequentador dessas páginas. Trabalho
há 13 anos no jornalismo automotivo e realizei vários sonhos, mas nunca tive a
oportunidade de conhecer o Sauer pessoalmente. Ou melhor, foi por pouco: quando
saiu sua biografia, recebi convite para a noite de autógrafos, mas eu estava em
fechamento no jornal e não pude ir. Lamento até agora por não poder apertar a
mão de um homem que eu admirei desde a infância e que não está mais entre
nós.”.
Solteiro e sem filhos, Eduardo
Hiroshi faria 36 anos no próximo domingo (12/5). Apesar de ter deixado um
bilhete em seu bolso, onde dizia querer ser cremado, foi enterrado na tarde
desta 3ª.feira (7/5) no cemitério Nossa Senhora do Carmo, em São Carlos.
Memórias da Redação
A história desta semana é novamente uma colaboração de Plínio Vicente da Silva (plinio.vsilva@hotmail.com),
ex-Estadão, atualmente professor universitário e assessor especial na
Prefeitura de Boa Vista, em Roraima.
Mensageiro do ar
Vivo
e trabalho há quase 30 anos numa das regiões mais isoladas do Brasil, o
extremo-norte da Amazônia. Quase toda coberta por floresta fechada,
dividindo-se entre os alagados ao sul, savana no centro e montanhas ao norte,
nas fronteiras com a Guiana e a Venezuela, essa área é tão extensa que há
lugares, como as centenas de pequenas vilas e aldeias indígenas, aonde só se
chega pelo céu, pelos rios ou por raras trilhas que arremedam estradas.
Nos
meados de 1987 a grande invasão de garimpeiros em Roraima trouxe ao
ex-território federal mais de 50 mil pessoas, que vieram se aventurar nas
incontáveis corrutelas abertas no coração da terra dos ianomâmi. Tanta gente
vindo e indo fez o espaço aéreo de Boa Vista se transformar num cenário de
guerra, pontilhado por centenas de avionetas, como dizem os venezuelanos, cruzando
o céu da cidade. Os registros da época apontavam o aeroporto local como um dos
três mais movimentados do Brasil, só perdendo para o Galeão e Congonhas. Eram
mais de 400 aeronaves estacionadas no pátio e nas manhãs e tardes o intervalo
entre decolagens e aterrissagens chegava a ser de pouco mais de dois minutos.
Certo
dia, num final de setembro, recebi ligação do Centro de Produção, responsável
pela coordenação do tráfego entre as redações de Estadão, JT e Agência Estado e
as sucursais e correspondentes. Não me lembro de quem era a voz do outro lado
que me passou a seguinte mensagem: “Chegou a informação de que garimpeiros
mataram índios num lugar chamado Novo Cruzado, aí em Roraima. Mande matéria de
30 linhas, se possível com fotos”. E então veio o pedido, marcado pela falta de
conhecimento que muitos brasileiros ainda têm sobre a Amazônia: “Dá pra você
pegar o carro, ir até lá e mandar o texto pela escuta até o meio da tarde? Tem
algum jeito de transmitir fotos?”.
Minha
primeira reação foi de riso, mas me contive. Expliquei didaticamente que o
local do conflito ficava no vale do rio Paapiú, uma imensa área que abriga
várias aldeias indígenas da etnia ianomâmi, a cerca de 450 km de Boa Vista e
aonde se chega de avião depois de hora e meia de voo. Cumprir pauta naquelas
paragens implica passar por lá um bom tempo, pelo menos uma semana. Então, não
bastava descer na pista do Paapiú. Em terra, era preciso depois caminhar ainda
por cerca de um dia inteiro por trilhas semiabertas na floresta até chegar a
Novo Cruzado, que já nem existe mais. Dependendo de situações como aquela – as
notícias davam conta de que estava em curso uma guerra entre índios e
garimpeiros – matéria com fotos só depois de uns dez dias, já de volta a Boa
Vista. Menos que isso a viagem não compensava.
No
meio da tarde a Produção voltou a ligar. A Nacional autorizara a viagem de
avião e queria matéria especial não só sobre o conflito, mas também mostrando o
clima de beligerância que se espalhara pelos garimpos roraimenses nas terras
ianomâmi. A recomendação era de que eu viajasse o mais rápido possível. Havia,
entretanto, um problema: com a demanda em alta, uma “perna” de avião, como se
diz por aqui, estava custando os olhos da cara e eu não tinha dinheiro para
bancá-la à vista e depois receber o reembolso. Por isso, só viajaria no dia
seguinte, assim que a remessa bancária caísse na minha conta. Minha ideia era
me estabelecer na corrutela, ouvir pilotos e garimpeiros e fazer a matéria em
cima desses depoimentos. Junto, levaria uma velha Yashica 35 mm, que dava pro
gasto.
Ainda
no meio da tarde um táxi parou em frente à minha casa. Dele desceram um rapaz
loiro, olhos azuis, e outro amorenado, cabelos crespos, máquina fotográfica ao
ombro. Com sotaque bastante carregado o loiro se apresentou: Paul Murally, inglês, correspondente no
Brasil da agência de noticias Reuters; seu companheiro era Wanderley Rodrigues, o fotógrafo. Haviam me localizado por meio da
sucursal do Estadão no Rio e vieram me procurar para ajudá-los na cobertura do
conflito do Novo Cruzado. A proposta era me levar junto, com todas as despesas
pagas. Claro que topei, mas foi aí que cometi um erro: não avisei São Paulo que
viajaria com eles naquele mesmo dia.
A
corrutela do Paapiú parecia uma daquelas cidades do velho oeste americano. A
pista servia de rua principal, com oficinas, depósitos de combustíveis e pátio
de aeronaves de um lado; armazéns, cantinas e moradias do outro. Atrás desse
lado, seguindo as margens do igarapé, ficavam o cabaré e os quartinhos
abafados, úmidos e emporcalhados onde mulheres vendiam o corpo nas noites
quentes da floresta. Aliás, tudo lá era pago a peso de ouro. Nessa época o
grama estava cotado, lá no garimpo, a cerca de 90 cruzados novos. Assim, a
noite com uma “prima” custava 10 gramas; churrasco a 5 gramas; prato feito, 2
gramas; latinha de cerveja ou refrigerante, 1 grama.
Para
minha sorte Paul nos abrigou nas barracas de um acampamento bem montado,
construído na cabeceira da pista. Algumas comodidades impensáveis num garimpo
faziam a diferença: energia elétrica fornecida por gerador, banheiro com
chuveiro quente (uma motobomba puxava a água do igarapé e abastecia o depósito
suspenso de dois mil litros), cozinheira, garçonete e refeitório.
A
estrutura toda pertencia a um nissei, Roberto Nakamura, que também alugava
helicópteros. Foi assim que pude fazer belas matérias, indo a vários lugares em
voos pelos quais meu amigo inglês pagou US$ 2.000 a hora. Ou seja, no final de
uma semana ele já havia bancado cerca de 20 mil dólares em hospedagem e em voos
para vários garimpos: Novo Cruzado, Raimundo Nenê, Caveira, Constituição etc.,
todos na fronteira com a Venezuela.
Uma
das precauções que se deve tomar ao fazer uma viagem dessas é tentar suprir a
total falta de comunicação, pois em muitos lugares o sujeito acaba isolado no
meio da selva por vários dias. Assim, já escolado por viagens anteriores, não
abri mão de levar na bagagem um radio de pilhas, desses com várias faixas de
ondas. Esse tipo de aparelho é companheiro inseparável não só dos garimpeiros,
mas também de quem mora nas localidades mais remotas da região amazônica.
Certa
noite, depois do jantar, enquanto jogávamos cartas entre uma dose e outra de um
escocês puro sangue, liguei o radinho para ouvir o Mensageiro do Ar, lendário programa transmitido em ondas
curtas pela extinta Rádio Nacional de Roraima, integrante da rede de emissoras
oficiais do Governo Federal. Benjamim
Monteiro, radialista roraimense tão lendário quanto o programa, começou a
ler os bilhetes com as mensagens que recebera naquele dia e num deles pediu:
“Atenção jornalista Plínio Vicente, lá na pista do Paapiu. Sua esposa Salete
manda dizer que o pessoal do Estadão está ligando de hora em hora atrás da
matéria que você prometeu. É pra você voltar imediatamente, pois estão todos
preocupados com o seu desaparecimento”.
Coincidência
ou não, nossa volta estava programada para o dia seguinte. Assim que cheguei em
casa, e depois de alguns momentos com a mulher e os filhos, escrevi a matéria,
coloquei num envelope junto com alguns fotogramas devidamente identificados que
o Wanderley me deu com a recomendação de o jornal não lhe dar crédito.
Explicou-me que as fotos da Reuters não podiam ser vendidas dentro do Brasil
devido a restrições contratuais.
Voltei
ao aeroporto e despachei o material. Nessa época não havia em Boa Vista nem
telex nem aparelho de telefoto. Exceção aos pequenos textos, transmitidos por
telefone, o material mais elaborado era mandado via aérea, em envelopes
especiais levados pelos pilotos e deixados nos balcões da Varig ou da Cruzeiro
do Sul.
Voltei
para casa e só então liguei para o Estadão. Disseram-me que Rodrigo Mesquita, diretor da Agência
Estado, queria falar comigo. Assim que atendeu ele me deu a maior bronca: “Como
você me faz uma coisas dessas? Você lá tem condições físicas para ir embora pro
meio da selva fazer matéria de garimpo? Ficou maluco?”. Depois, mais calmo,
perguntou: “Afinal, fez as matérias? Conseguiu as fotos?”. Ficou satisfeito com
a resposta, elogiou meu profissionalismo, pediu-me que não me arriscasse mais e
por fim fez uma última pergunta: “Afinal, como soube, lá no fim do mundo, que
estávamos preocupados com o seu sumiço?”. Foi nesse dia que o Mensageiro do Ar mostrou o seu valor e a importância que tem
para quem vive isolado no interior da Amazônia. Ainda hoje, nos sete dias da
semana, o velho Benja continua anunciando às 10 da noite: “Começa agora o Mensageiro
do Ar, voz e ouvidos da Amazônia”.
Durante uma hora e meia ele manda seus recados pelas ondas médias, curtas e
longas agora da Rádio Roraima, sucessora da Nacional.
Nota da Redação – Histórias como
essa, que Plínio tem contado neste espaço nos últimos anos, levaram Rosana Zaidan, responsável pelo jornal
A Cidade, de Ribeirão Preto (interior de São Paulo, onde ele foi criado), a
considerá-lo “boa pauta” para uma entrevista, tarefa que entregou a Sidnei Quartier, contemporâneo de Plínio
no Estadão. O resultado, publicado em três páginas na edição do jornal no
domingo passado (5/5), você confere no http://migre.me/erVDW.
(Leitores que quiserem colaborar com histórias engraçadas ou curiosas de redações podem enviá-las diretamente para a redação deste J&Cia, pelo baroncelli@jornalistasecia.com.br)
Esses são alguns dos destaques da edição desta semana do informativo Jornalistas&Cia, que circula por redações e assessorias de todo o País